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ArtRio 2021

Anna Maria Maiolino, Artur Barrio, Emmanuel Nassar, Hélio Oiticica, Henrique Oliveira, Ivens Machado, Jaider Esbell, José Damasceno, Maya Weishof, Miguel Rio Branco, Paulo Pasta, Rodrigo Andrade e Tunga

8 - 12 de setembro de 2021

Jaider Esbell, Makunaimî cria o espelho universal, 2021
Anna Maria Maiolino, Sem título, da série Indícios, 2005
Emmanuel Nassar, Chapa 163, 2012
Rodrigo Andrade, Estrada para o litoral, 2020
Hélio Oiticica, Metaesquema, 1958
Paulo Pasta, Sem título, 2021
Maya Weishof, Vênus e Marte, 2021

Press Release

A Galeria Millan tem o prazer de apresentar o projeto Metonímia viva para participação na ArtRio 2021. Com uma seleção de cerca de 15 artistas, a operação central dos trabalhos dispostos na área expositiva está fundada nas diferentes construções da experiência a partir da metonímia. Ao criar sentidos pela contiguidade dos elementos, a relação metonímica atravessa estas produções através do deslocamento sensível de partes de campos semânticos específicos.

As séries Indícios, de Anna Maria Maiolino e Estojos, de Tunga, apresentam fragmentos ou resíduos de uma realidade anterior a que o objetos se referem. O emaranhado da costura de Maiolino subentende uma chave para um lugar que não está ali, e ainda assim o representa perfeitamente, como em um mapa. O mesmo ocorre com o cristais de rocha e ímãs de Tunga, que podem estar tanto na composição dos jardins como das paisagens e apresentam a entrada para esse outros ambientes como em um portal.

Em Makunaimî cria o espelho universal, de Jaider Esbell, este recurso se transfere à figuração, como uma ferramenta central para elaborar essa outra história, uma história a contrapelo. A cena retratada por Esbell é conhecida pelo artista, mas revela-se a quem não a conhece através de elementos marcantes, como a composição cromática de contrastes e o traçado que remete a padrões específicos.

O indício cromático está presente também em Maya WeishofEmmanuel Nassar e Paulo Pasta, que constroem, na conjunção de cores determinadas, uma discussão interna. As referências ao vazio e ao cheio, ao claro e ao escuro e à percepção cromática perpassam as produções de Weishof, Pasta e Nassar, remetendo ao percurso argumentativo acerca da cor nos rumos da História da Arte. De maneira semelhante, Cumplicidade #20, de Túlio Pinto, remete ao mesmo percurso argumentativo; desta vez do lado da escultura e das discussões sobre o espaço e a matéria.

Em paralelo, a paisagens de Rodrigo Andrade e as composições fotográficas de Miguel Rio Branco são fragmentos daquilo que já se conhece, de uma realidade comum a todos. Tais fragmentos, entretanto, determinam que, ainda que remetam a um todo maior, são capazes de modificá-lo, à medida que existem autonomamente – em um câmbio entre a metonímia e a metáfora.

O recurso da metonímia está presente com muita ênfase nas produções dos artistas da geração brasileira de 70, ainda que tida como uma geração hermética, por ter-se encontrado diante de um silêncio imposto. A arte seria a última resistência quando nada mais parecia possível e encontrou no recurso metonímico uma de suas chaves. Artur Barrio e Ivens Machado falam dessa incomunicabilidade, da ameaça da doutrinação, das falhas do sistema que se crê eficiente e em perfeito funcionamento. Os transportáveis de Barrio o fazem ao usar materiais frágeis, que recusam a perenidade, pautando a descrença na permanência do objeto e sua canonização. Já o trabalho de Machado o faz ao se apropriar das falhas e refugos daquele mundo competente da precisão industrial, os “desvios da ordem”.

Em José Damasceno, o todo se refere a uma espécie de transubstanciação do objeto inicial: as cores dos gizes de cera são fragmentos de um objeto distante, um monitor de televisão. A conexão entre dois objetos distintos torna-se clara e faz emergir uma compreensão de que a relação do espectador com o jogo de indícios – o agrupamento de gizes – é capaz de encontrar um caminho alternativo.

Os meta-esquemas de Hélio Oiticica parecem, por fim, colocar em cheque a discussão da metonímia em um mesmo suporte, na medida que se constroem como uma série de múltiplas e diversas dissecações do espaço. Em Oiticica e seus meta-esquemas visualizamos a questão central: em que medida a pintura pode se organizar como indícios do tridimensional – ou vice versa? É, de alguma maneira, o trajeto natural da metonímia em plena atividade na arte, metonímia viva.