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Vista da exposição, Foto: Massimo Failutti
Vista da exposição, Foto: Massimo Failutti
Vista da exposição, Foto: Massimo Failutti
Vista da exposição, Foto: Massimo Failutti
Paulo Pasta, Sem título, 2014
Paulo Pasta, Sem título, 2015
Paulo Pasta, Sem título, 2015
Paulo Pasta, Sem título, 2015
Paulo Pasta, Sem título, 2014
Paulo Pasta, Sem título, 2015

Press Release

Sem fazer uma individual na cidade desde 2012, Paulo Pasta exibe, a partir do dia 12 de novembro, um amplo conjunto de trabalhos inéditos em São Paulo. Intitulada Há um fora dentro da gente e fora da gente um dentro, a mostra marca a inauguração de um novo espaço da Galeria Millan na capital paulista, apresenta um grupo de pinturas nas quais o artista alia experimentação, intuição e rigor e traz também a público o seu promissor reencontro com o gênero da paisagem.

Assim como o verso que Pasta tomou emprestado do poeta mineiro Francisco Alvim para lhe dar título, a mostra promove uma interseção – no caso, entre dois diferentes grupos de obras aparentemente distintas, mas com surpreendentes pontos de contato e identidade. De um lado estão as paisagens, reintegradas novamente ao repertório do pintor após décadas de ausência; de outro, telas abstratas, marcadas por uma intensa e ambígua atmosfera cromática e refinada estrutura geométrica, que são responsáveis por seu inquestionável protagonismo na pintura contemporânea brasileira. Ambas nascem do mesmo interesse pelo fazer pictórico, pela reinvenção do mundo e por uma arte na qual a experiência caminha de mãos dadas com a intuição.

A exposição ocupará simultaneamente os dois endereços da Millan na cidade. No espaço tradicional da galeria serão expostas telas de diferentes formatos que fazem parte da persistente pesquisa empreendida por Pasta em busca de um equilíbrio rigoroso e delicado entre forma e cor. Mas junto delas será possível ver uma das paisagens produzidas recentemente pelo artista tomando como ponto de partida o entorno de sua cidade natal, Ariranha. No novo A n e x o M i l l a n , situado a apenas poucos metros de distância da galeria principal, o mesmo processo de fricção estará presente no bloco expositivo. Dedicado às paisagens, o novo espaço abrigará ainda uma enorme tela abstrata. “A ideia é sinalizar que não parei de fazer nada, só acrescentei”, diz o artista, explicando a razão e a estrutura entrelaçada do duplo evento.

É importante ressaltar que as paisagens não são algo novo na trajetória de Paulo Pasta. Elas tiveram importância central no início de sua carreira. Foram exatamente os trabalhos nascidos do embate com a paisagem árida das grandes plantações de cana-de-açúcar da região de sua cidade natal que deram corpo a sua primeira exposição, em 1984. Rapidamente, no entanto, seu trabalho se depurou, tornando-se uma complexa e rica estrutura de planos, formas e cores. Só recentemente as lembranças e o desejo de retomar o processo de construção da paisagem foram rebrotando e ganhando espaço em sua labuta diária com os pincéis, de forma tímida porém persistente.

O estopim desse processo foi a leitura de uma biografia de V a n G o g h e o encanto renovado com o paisagismo do século XIX. O pintor enfatiza que não há nesse processo nenhuma intenção figurativa ou de mimese. São trabalhos que nascem muito mais do ato de pintar do que da natureza em si. O retorno à mesma cena retratada na juventude não decorre de uma relação saudosista, mas de uma íntima conexão da obra com a memória. Ao longo de 26 anos, de 1977 a 2003, ele percorreu rotineiramente, pelo menos uma vez por mês, os cerca de 370 quilômetros que separam São Paulo de Ariranha. “Pintar uma outra paisagem não faria sentido”, diz o artista, explicando que para ele a pintura está ligada ao ato de lembrar. “Minha relação com a pintura é a de uma construção mútua: a memória afeta a minha pintura, e a pintura também me afeta. É algo que se construiu através do tempo", acrescenta. Ele deixa claro que seu interesse não é narrativo: “São os planos vazios que me fascinam, adoro pintar céus”, sintetiza.

Há alguns anos esses desenhos, como o artista chama todas as suas obras sobre papel, renderam a publicação de um encarte na Revista Serrote, do Instituto Moreira Salles. Em seguida foram exibidos no Instituto Figueiredo Ferraz, de Ribeirão Preto, estabelecendo um interessante diálogo com a região noroeste e sua paisagem semelhante à de Ariranha. Só agora a série, bastante ampliada, chega a São Paulo e encontra a possibilidade de travar uma relação com o resto da produção do artista.

Não são só as paisagens, porém, que trazem algo de novo na obra de Pasta. Em comparação com trabalhos anteriores, é possível perceber uma maior liberdade nas telas abstratas a serem expostas na Galeria Millan. O contraste cromático está mais intenso, as cores mais luminosas e ousadas. Paulo Pasta não é um artista abstrato no sentido estrito da palavra. Suas formas necessariamente surgem do mundo, são inspiradas por pequenos detalhes, imagen’’s captadas aqui e ali e reelaboradas. Cruzes, ogivas ou cacos de azulejo são, por exemplo, temas recorrentes em sua produção.

Dentre as investigações mais recentes (a exposição reúne apenas trabalhos dos últimos três anos) destaca-se por exemplo o surgimento do motivo da Anunciação. Bebendo na fonte das diversas representações da anunciação do anjo à Virgem Maria, nas quais os dois personagens estão sempre separados por uma coluna, Pasta recria um espaço sintético, porém cênico e com um suave caráter tridimensional devido ao uso inédito da linha diagonal em suas obras.

Junto com a exposição a galeria lançará Fábula da Paisagem, um livro-objeto (25 cm x 20 cm) com cerca de 25 das paisagens criadas por Pasta. O crítico e doutor em Literatura Samuel Titan Jr. assina a edição e o texto de apresentação.

O NOVO ESPAÇO EXPOSITIVO DA MILLAN

A mostra de Paulo Pasta sintetiza as expectativas da Galeria Millan com a sua ampliação. Batizado de Anexo Millan, o novo espaço é assinado por Sérgio Kipnis (da Kipnis Arquitetos Associados) e Fernando Millan, autores do premiado projeto da sede original da galeria, localizada no mesmo quarteirão da Rua Fradique Coutinho, na Vila Madalena. O novo prédio permitirá à galeria uma maior flexibilidade e versatilidade, viabilizando a exibição de mais instalações de grande porte, performances, além de uma melhor gestão do acervo e da implementação de projetos de residência.

Foram necessários 18 meses de obras para colocar de pé a construção, de traçados retos e minimalistas. Seus 450 metros de área edificada abrigam dois ambientes expositivos contíguos, de diferentes volumetrias. O primeiro deles, conectado ao pátio de entrada que dá diretamente sobre a rua, se assemelha a um enorme cubo, com 60 m2 de superfície, pé direito duplo (6m de altura) e iluminação natural promovida por dois grandes recortes de vidro próximos ao teto. O segundo espaço expositivo é mais extenso – 25m de comprimento por 5m de largura - e possui teto rebaixado em diagonal (altura de 4m no lado direito e 3m no esquerdo). A separá-los, apenas uma enorme porta retrátil (que não será usada na exposição inaugural). O projeto contempla ainda um pequeno apartamento funcional para receber artistas residentes.

“O espaço expositivo tem que ser também um espaço reflexivo”, afirma André Millan, que espera conseguir assim uma nova dinâmica para a galeria. Depois desse diálogo entre os diferentes caminhos explorados por Paulo Pasta – e que dificilmente poderia ser mostrado em toda a sua densidade sem a existência do Anexo -, outros eventos já estão sendo projetados, como exposições de Miguel Rio Branco, Tunga e Fernando Lemos, além da realização de um performance por Lenora de Barros.